6 de agosto de 2007

Sonho

Estávamos conversando, eu e mais três amigos na saída do cursinho que fazemos aqui no bairro em que moramos. A conversa estava interessante, falávamos de vários assuntos: cursos, filmes, livros e dos nossos sonhos. Aproveitamos também aquele “papo” para fazermos projeções para o futuro, projeções do tipo: o que iríamos ser no futuro e em que poderíamos contribuir com a sociedade com o nosso ingresso na universidade. No meio da conversa, não sei por qual motivo, tive vontade de olhar para trás, então foi nesse momento que algo me atingiu na cabeça foi como se alguém tivesse me dado uma pancada. Só que não havia ninguém mais ali, alem de nós três.
Cai no chão sentindo uma dor terrível. Perdi meus sentidos vitais, com exceção da visão. Meu rosto ficou coberto de sangue o que dificultava mais ainda as imagens daquele momento, com dificuldade eu via que meus amigos movimentavam-se e falavam bastante. Eu não conseguia ouvi-los, mais a movimentação de seus corpos era mais lenta do que o normal, talvez fosse por que eu sentia muita dor e muito sono. Só sei que a vida tinha tornado-se deferente - as pessoas pareciam mais humanas, num passe de mágica fui cercado por um monte de gente.
Não sei quanto, mas por algum tempo eu não consegui visualizar meus amigos naquela multidão que se aglomerava ao meu redor, mas isso não importava, eu estava cercado de gente por todos os lados. Não sei por quanto tempo fiquei ali deitado no chão, e nem sei ao certo se aquilo era mesmo chão, era um chão diferente, era um chão macio e bastante confortável muito diferente do chão que eu conhecia.
As lembranças que tenho desse momento são fragmentadas o que me impossibilita de narra-las com mais propriedades. Lembro que as pessoas se aglomeravam ao meu redor, só que eram pessoas diferentes, eram compridas e de pés grandes, acho que essas deformidades eram por eu estar no chão, o que me possibilitava uma visão de baixo para cima, uma visão que eu nunca havia experimentado antes, raramente eu via um rosto conhecido, mas isso não importava, ali todos eram muito parecidos. A única coisa que me chamava atenção era que aquelas pessoas tinham pernas e braços compridos, acho que por esse motivo ficava difícil reconhece-las. Chegava a ser engraçado.
Mas teve um rosto que fez algo diferente dos demais, assim que chegou próximo a mim imediatamente abaixou-se, ficando bem próximo do meu rosto, esse rosto era deferente não apresentava nenhuma deformidade, ele tinha expressões fortes. A principio não o reconheci, mas aos poucos fui percebendo que era o rosto de uma mulher. Ela chorava sem parar, mas como eu não ouvia nada e tudo parecia acontecer em câmera lenta, era difícil identificar quem era ela.
Fiz um esforço para identificá-la. Estava certo de que conhecia aquela mulher.
Olhando para aquele rosto e as lagrimas que saiam dele comecei a ver cenas de minha infância, curiosamente em varias dessas cenas esse rosto estava presente. Eu conseguia ver as cenas sem deixar de ver as pessoas que estavam ali ao meu redor e principalmente aquela mulher que não parava de chorar.
As cenas se misturavam, iam e vinham sem uma ordem cronológica, lembrei de coisas que aconteceram na minha infância, mas também de fatos ocorridos recentemente. Por exemplo: a conversa com meus amigos ha poucos instantes de tudo aquilo acontecer. Vendo aqueles olhos cheios de lagrimas senti vontade de chorar e acho que chorei, não lembro de ter saído lagrimas dos meus olhos. O que posso afirmar é que chorei bastante. Após esse choro parei de ver as cenas de minha vida e retornei para aquele lugar, nesse momento reconheci aquela mulher que chorava ali próximo a mim. Era minha mãe.
Tentei acalma-la, mas parece que ela não me ouvia e por não consegui falar com ela tive vontade de chorar novamente, mas não consegui. Voltei a sentir dor, uma dor tão profunda que parecia que minha cabeça iria explodir, a dor se intensificou por alguns segundos, mas foi aliviando gradativamente e conforme foi diminuindo meus sentidos foram voltando, com exceção da audição. Eu conseguia ouvir algumas vozes, mas nada muito nítido, eram só uma seqüência de barulhos, tudo muito confuso. O barulho era parecido com um radio fora de freqüência, por alguns segundos aquele barulho parou e eu consegui ouvir uma voz bem distante dizendo que tinha sido um tiro e logo em seguida o barulho voltou e eu não consegui ouvir mais nada.
Aquela voz foi o bastante para eu entender o que estava acontecendo. Momentos antes de tudo aquilo acontecer havia passado um carro em alta velocidade na rua em que estávamos e logo em seguida aquele mesmo carro voltou em alta velocidade, acredito que foi por esse motivo que olhei para trás, olhei por causa do barulho dos pneus do carro.
Conforme a dor foi diminuindo, fui ficando fraco e adormeci, não sei por quanto tempo fiquei adormecido. Acordei abri os olhos lentamente para me certificar de que a minha visão estava funcionando normalmente. A confusão na minha cabeça era tamanha que eu já não sabia se tudo aquilo era um sonho ou se era real. Fiquei um longo tempo tentando entender o que de fato estava acontecendo. Como tudo era muito confuso comecei a crer que tudo não tinha passado de um sonho. Todos ainda estavam ali era tudo muito real. Nesse momento a dor tinha parado e fui recobrando todos os sentidos.
Fiquei por alguns segundos deitado e gradativamente comecei a ouvir e ver nitidamente, de fato aquela mulher que ainda estava ali próximo a mim era mesmo minha mãe, também ouvi as pessoas falando que tinha sido bala perdida, então tudo se confirmava – eu tinha sido vitima da violência causada pela ganância de alguns e pela falta de oportunidade de outros.
Nesse momento avistei o Rafael um dos amigos com quem eu conversava momentos antes, fiz força para levantar e curiosamente levantei com muita facilidade, era como se eu estivesse flutuando meu corpo estava leve e me sentia muito bem. Levantei e me dirigi até o Rafael que estava alguns metros a minha frente, ao me aproximar dele senti algo estranho em seu rosto, ele parecia estar muito preocupado. Falei para ele não se preocupar por que estava tudo bem, mais ele agiu como se eu não estivesse ali, foi então nesse momento que lembrei da minha mãe e voltei-me para ela e vi que meu corpo ainda estava no chão, fiquei me perguntando como podia? Meu corpo ali no chão, mas eu estava me sentindo normal. Me virei para o outro lado e vi a Raquel, Bruna e o Rafael conversando, eles eram os três amigos que estavam conversando comigo antes daquele incidente, me dirigi até eles e mais uma vez eles pareciam não me ver. Então perguntei a eles o que de fato tinha acontecido. Mas eles não me responderam.
Cena como aquela eu já havia visto antes em filmes. Cheguei a imaginar que estava dormindo, mas era tudo muito real para ser um sonho. Cheguei a conclusão de que se aquilo tudo fosse um sonho tudo se resolveria quando eu acordasse. Após algumas tentativas fracassadas de acordar, vi que era muito real para ser um sonho, entrei em desespero, comecei a gritar e me movimentar para ver se alguém prestava atenção em mim, mas todas essas tentativas foram em vão por que todos ali só davam atenção ao meu corpo que estava no chão. Aproximei-me da minha mãe que estava ali junto ao meu corpo, cheguei bem próximo e fiquei olhando para ela e para mim ali naquele chão sendo amparado por aquelas mãos enrugadas de tanto trabalho. Fiquei olhando para ela e lembrando de toda a vida sofrida daquela mulher e de todos os meus esforços para estudar e trabalhar. Todo esse esforço tinha um único objetivo, um dia proporcionar uma melhor vida para aquela mulher a quem eu tinha uma admiração especial, e eu sabia que todos esse meu esforço não pagaria o que ela havia feito por mim. Após isso fiquei bastante emocionado e desmaiei.
Voltei a sonhar, agora o sonho era bem diferente. Eu estava em um campo com muito verde e pássaros a cantar. Ao lado desse campo havia um rio com uma água cristalina, todas aquelas imagens eram nova para mim. Comecei a me indagar se não tinha morrido e ido para o céu, mas sinceramente eu não achava que merecia ir ao céu. Nesse momento acordei com o barulho do despertador. Acordei e abri os olhos e vi que estava atrasado, levantei e sai correndo para não ter que ouvir meu patrão dizer que aquela era a terceira vez que eu chegava atrasado só naquela semana. Ao chegar no trabalho a primeira coisa que fiz foi escrever essa história que para a minha felicidade não passou de um sonho. Sonho bastante real nos dias atuais.
(Valdean)

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