11 de dezembro de 2007

Vestibular 2008 Contradições da Nossa Sociedade

Hoje sai de casa às seis horas da manhã para realizar a primeira prova do vestibular da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro). Moro no bairro Maré e por algum equivoco, não sei se meu ou do concurso meu local de prova foi no Centro, quando poderia ter sido no campus da UFRJ na Ilha do Fundão que fica a cinco minutos de caminhada da minha casa, realizei a prova no mesmo lugar onde estudarei, caso passe na prova. Instituto de Filosofia e Centro de Ciências Sociais, situado no Lago São Francisco de Paula Centro.

Já estive algumas vezes antes nesta praça e sei que há uma grande quantidade de pessoas morando nas ruas da cidade do Rio e parte destas pessoas moradoras de rua do Centro dormem nesta praça. Mas como neste domingo é dia de prova da maior universidade do Rio de Janeiro, cheguei até achar que fosse ter alguma estratégia para que os vestibulandos não vissem de perto a realidade dos moradores de rua da praça. Não pensei isso a partir do nada: durante os jogos Pan-namericanos ocorridos na cidade meses ates, inúmeros foram as ações para retirar os moradores de rua das ruas. Não vejo nenhum problema em tirar as pessoas das ruas e dar lhe uma moradia digna, não foi o caso, as ações foram apenas momentâneas e com o objetivo de limpar as ruas da cidade para que os visitantes não vissem a realidade dos moradores de rua..

Ao chegar ao local da prova por volta das sete horas e cinqüenta minutos, por tanto uma horas e dez minuto do inicio da prova. No local já havia um bom numero de candidatos à espera da abertura dos portões da universidade. Alem dos vestibulandos os habitantes da praça estavam levantando de uma árdua noite de sono sobre a pedra dura e expostas ao relento. Devem ter acordados com a movimentação, supôs, nem sei se é possível dizer que elas dormiram, quem sabe elas apenas passaram a noite ali, com sacos plásticos, cobertores e caixas de papelão elas tentam se proteger do frio da noite. Papelão é o da nossa sociedade que deixa pessoas passarem por isso. Acho até que o nome sociedade esta empregado de forma errada, ou não?
Como fico muito apreensivo com as provas dos vestibulares não consigo dormir na noite que antecede a prova, alem da apreensão também fico muito ansioso e acabo esquecendo algumas das recomendações das instituições.

Ao chegar ao local fui direto a um camelo, ( na barraca havia uma infinidade de produtos, biscoitos, refrigerantes, caneta, lápis e borrachas) lápis e caneta era o que me interessava, pois esses são recomendados por escrito no cartão de confirmação da prova, logo me deparei com mais um absurdo. Esse era um absurdo até compreensível, [já que vivemos numa sociedade onde a disputa é o ponto máximo, vestibulando, provas, moradores de rua, camelos, etc]. Cada lápis e cada caneta custando dois reais.

Pedi um desconto e o camelo me fez um desconto de um real sobre a compra de um lápis e uma caneta. Acho até que ele fez um bom negocio, se levarmos em conta o preço de um lápis e uma caneta nos dias normais (oitenta
Centavos, os dois) e ainda mais porque em seguida gastei o que consegui pechinchar comprando um biscoito para um garoto de aproximadamente nove anos, esse era apenas um dos inúmeros garotos moradores de rua daquela praça que por ali circulavam entre os vestibulandos. Ao dar o biscoito a um deles veio mais um, mais um e mais...um... É num momentos desses que percebemos que os problemas sociais não pode ser resolvidos com ações individuais, eles só serão resolvidos se forem combatidos coletivamente, o que não é feito, dai a palavra sociedade para mim perde o sentido.

Falei para as demais crianças que não podia dar-lhe nada e não podia mesmo. Dirigi-me para uma outra barraca para comprar um chocolate prestigio e uma garrafa de água, pois na barraca que tinha quase tudo faltava os outros dois produtos que eu precisava. Na segunda barraca mais uma surpresa, a água que nos dias normais custa um real, neste domingo custava dois reais e o prestigio que custa em media cinqüenta centavos estava à venda por um real e cinqüenta centavos. Justo! Acho que para sair do aconchego de sua casa num dia de domingo para trabalhar deve se ganha mesmo o dobro dos dias normais. A principio não achei, pois não achava justo aquela prova e muito menos o preço daqueles produtos, mas pensando bem quem de certa forma paga o salário dos trabalhadores categorizados como informais somos nós consumidores dos produtos vendidos por eles e como faço parte dessas sociedade... Nada mais justo que eu também pagasse pelo preço exigido.

Momentos antes na barraca que fiz a compra de quatro reais, fiquei observando as crianças circulando entre os prováveis novos universitários [a meu ver mais uma palavra mal colocada. UNIVERSO. Coisa grande que nesse casa poderia ser muitos, ou todos. Mas como na nossa sociedade tudo é muito contraditório. Universo pode ser também um pequeno grupo, neste caso apenas alguns] e quando as crianças chegavam até as pessoas pedindo algo. Comida era o que elas pediam, algumas pessoas sequer lhes dirigia um olhar. Como dizem os teóricos Cientistas Sociais, as crianças pareciam ser invisíveis. No momento em que eu ia saindo para a barraca que descreverei em seguida o menino que dei o biscoito me olhou e deu um sorriso, como quem queria me agradecer, não pelo biscoito e sim pela atenção, pelo menos foi isso que entendi.

Na segunda barraca tentei um desconto mais foi inútil, pois a mulher me disse que não podia fazer nenhum desconto por que a barraca nem dela era e por isso não podia dar desconto algum. Enquanto tirava o dinheiro da carteira para pagar a compra que fiz chegou mais um menino e me pediu um biscoito, como não consegui dizer não pedi a ele que escolhesse o biscoito que ele queria. Imediatamente ele escolheu um que custava dois reais. Sub total da compra: um real e cinqüenta centavos do prestigio, dois reais da água e mais dois reais do biscoito para o menino. Total de quatro reais e cinqüenta centavos.
Menino que gerou o seguinte debate:

Próximo à barraca alem da vendedora que revelou pouco depois ser nordestina, havia também dois rapazes e uma moça que me disse quase em tom de segredo que estava muito nervosa e eu para lhe passar um pouco de confiança também lhe confessei estar nervoso, o que de certa forma era verde e acho que essa minha confissão ajudou muito mais a mim do que a ela. Ela me disse também que era mineira da cidade de Juiz de Fora e que ia tentar pedagogia. Um dos rapazes, um senhor que julguei esta acompanhando a moça ao ver o garoto me pedindo o biscoito disse que era melhor eu não dar, pois se desse a um os demais viriam pedir também. A menina da pedagogia parecendo está chocada disse que se pudesse tiraria todas as crianças das ruas, apenas as crianças e o senhor completou: “na verdade para resolver o problema das crianças é preciso que se faça um controle de natalidade”. E continuou “há muitas mães tendo filhos sem poder cria-los e por isso é muito importante que essas mães parem de ter filhos”.

Concordei com ele, mas deixei claro que concordava até certo ponto. Na verdade concordei apenas por educação e por que queria que continuássemos conversando. Completei dizendo: concordo com o senhor até o ponto em que as mães não tem condições financeiras para criar os filhos, só até aí. E tentei ganhar o coração daquele homem como um "crente fanático tenta ganha uma alma". Disse para o senhor que a redução da natalidade não resolveria nada, pois o que tem que ser feito são ações que faça com que as pessoas vivam dignamente e não retirar lhe o direito de ter filhos, mas o senhor insistia que a solução é a redução da natalidade. A menina não entrou na discussão, apenas ouvia com atenção, a vendedora da barraca não resistiu e também entrou na conversa, não disse diretamente que era a favor do controle de natalidade, mas disse que estava acontecendo um fenômeno na região nordestina do Brasil "o governo está dando um auxilio para as famílias que tem filhos pequenos, e com isso esta acontecendo que as mães para terem o auxilio ou receberem por mais crianças estão engravidando". Como já diz o dito popular "para um bom entendedor meia palavra basta". Neste momento descobre que ela era nordestina, também percebi a posição dela em relação ao controle de natalidade, assim como a do senhor mesmo eu julgando que os dois estavam de lados opostos.

O outro rapaz que também ia fazer o vestibular, preferiu não entrar na conversa e se limitou apenas a dizer que aquele assunto poderia cair na prova. Todos concordamos, inclusive o senhor, que nem fazer a prova ia. Peguei a água o prestigio e o troco, nesse momento a discussão já havia acabada, e aí a menina da pedagogia me perguntou o que eu ia tentar. Respondi que tentaria o curso de ciências sociais, e conclui dizendo que eu já vinha tentando desde 2006. Ela meio que para me dar um apoio moral me retribui dizendo que esse ano eu conseguiria, também perguntei o que ela ia tentar. Pedagogia ele disse. E como eu não poderia deixar de manifestar a minha opinião em relação ao vestibular disse a ela que na verdade o vestibular teria que acabar ela apenas sorriu. Fiquei tentando imaginar o que ela tinha achado da idéia, mais era impossível saber a sua opinião já que não perguntei diretamente e com aquele sorriso, apenas imaginei que ela poderia ter achado um absurdo ou uma idéia genial.

Desejei boa sorte a ela e aos demais e me dirigi à sala em que faria a prova, sala 312at no terceiro andar do prédio. Ao chegar na sala da prova, momento da conferencia dos documentos um dos senhores ao ver minha identidade me olhou e disse “boa sorte conterrâneo”! era mais um nordestino, e mais que isso, era um cearense Retribui lhe com um sorriso, e algumas palavras de exaltação a nossa terra, também muito querida por ele...
Durante a realização das provas, de vez enquanto me vinha à mente as cenas e as conversa que eu havia tido momentos antes.

Acho que fui bem na prova, particularmente achei a prova muito fácil, mais isso implica que todos foram bem, e como isso a media vai se elevar. Estou confiante, caso não passe na UFRJ, ainda tem o vestibular da UERJ e esse ano também estou concorrendo a uma bolsa na PUC, quem sabe não consigo numa dessas três universidades. Caso não consiga, posso tentar o ano que vem novamente, é como diz o ditado popular, “não há nada melhor do que um dia após o outro”, neste caso, um ano após o outro.

Francisco Valdean

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