29 de março de 2008

artigos

Neste espaço do blog O Cotidiano você encontrara todos os artigos aqui publicados.

Os muros que circundam as favelas

O que é a favela?

Fotografia

18 de março de 2008

Minha primeira semana na UERJ



Recentemente contei neste blog como havia sido o primeiro dia de prova do vestibular da UFRJ em 2007 e agora venho aqui para contar como foi minha primeira semana como universitário da UERJ (Universidade do Rio de Janeiro). Não passei para a UFRJ, mas passei para a PUC e UERJ, todas eu havia tentado o mesmo curso, Ciências Sociais.

Escolhi o curso de Ciências Sociais por que acho que esse curso pode me possibilitar um crescimento político e quem sabe um melhor entendimento de algumas indagações que tenho sobre o mundo.

Sinto neste momento uma mistura de felicidade com algumas pitadas de angústia. A felicidade é por conta da conquista, conquista essa que já mais acreditei conseguir, não por incapacidade, e sim por que os fatos apontavam para essa certeza. A angústia é por entender e não compreender por que os demais de onde venho para chegar à universidade tem ou terão que andar sobre pedras e vegetações espinhosa, e nem todos se propõem a isso.

No ano de 2006 tentei o vestibular da UERJ, mas fiquei na primeira fase, é que sempre subestimei o vestibular e achava que iria passar na primeira vez que fizesse, mas não foi bem assim. Em 2007 tive que fazer algumas adequações e aprender um pouco mais sobre os truques do vestibular. Parece brincadeira, mas existe inúmeras técnicas e há até quem acredite em algumas crendices para se dar bem no vestibular. É claro que não podemos só contar com os truques e credos, temos também que adquirir algum conhecimento, afinal o vestibular passa o conhecimento não.

Não deveria ser assim, acho que deveríamos sair do segundo grau e ingressar na faculdade. Teoricamente a conclusão do ensino médio nos habilita a ingressar no ensino superior, mas... Temos que alimentar o sistema, ele precisa e nós também, o sistema cumpre seu ciclo e nós acreditamos ser merecedor, todos ficam felizes.

Primeiro dia

As aulas começaram no dia 10/03/2008. Sai cedo para conhecer a sala e meus novos companheiros de curso. Faculdade! Isso não é pouca coisa, apenas 8% da população brasileira tem ensino superior. Agora faço parte de uma elite, se bem que não posso me empolgar, pois os números são cruéis, dos 17% que ingressam nas faculdades públicas apenas metade conclui o curso e eu posso estar neste grupo.

Logo eu que lutei tanto para entrar numa faculdade, não, eu não posso morrer na praia, preciso nadar até areia, para pelo menos meus pais dizerem: - nosso filho não se entregou, lutou até o final. - Serei o orgulho da família, se bem que isso será muito fácil, já que sou o primeiro de todas as gerações de minha família a ingressar numa faculdade.

Ao chegar no 9º andar da UERJ, sala 9002, pavilhão F, já havia alguns dos companheiros de turma no local. Essa sala fica lá no cantinho do 9º andar, de lá da para ver o estádio Maracanã.

Eu estava apreensivo, assim como os demais calouros, pois todos sabiam que o primeiro dia é o dia do “trote”. Mas tentávamos disfarçar, aos poucos, enquanto não chegava os veteranos fomos nos conhecendo, alguns vêm de muito longe, Petrópolis, Volta Redonda, Saquarema... Alguns até fazem outros cursos em outras faculdades. Dois cursos, - agora começo a entender um dos motivos que leva aos meus a não terem vagas nestas instituições. Ah! esqueci, todos passamos por mérito e isso é louvável. Graças a Deus que somos livres, podemos fazer dois cursos enquanto alguns penam por mais de um ano nos cursinhos pré-vestibulares para fazer apenas um. Mas não tem problema chegara sua vez. Façam a mesma coisa, passem em duas, três... Só não esqueçam, alem de estudar vocês ainda tem por obrigação trabalhar, e quem trabalha não tem tanta liberdade assim.

Chegaram os veteranos, nós como uns cordeirinhos, sentamos bem quentinhos para que os terríveis veteranos não nos percebessem - isso é um perigo - alguém alertou. Ninguém se habilita a conversar com os veteranos, pois quem faz isso pode ser o primeiro “trotado”.

Tudo correu bem, no nosso curso o trote é civilizado. - Era o que alguns veteranos fazia questão de enfatizar, nada de humilhação, nada de coisas vergonhosas. Só algumas tortas na cara, um pouco de tinta aqui e ali, um fofinho nariz de palhaço e um pouco de farinha de trigo. Mas isso é legal ajuda a integrar os calouros aos veteranos.

O trote prolongou-se por toda a semana, alguns foram pedir dinheiro na rua pintados de Hulck, Homem-Aranha e outros personagens. Essa grana vai ser gasta numa chopada, com data ainda não definida.

Eu não pude ir para a rua, saia de lá para o trabalho e não podia aparecer no trabalho pintado de homem aranha ou coisa parecida. Participei de algumas das brincadeiras e vou passar uma rifa para contribui com a chopada, apesar de não beber. Outros também passaram rifa.

Acho que a recepção aos novos alunos é legal, pois é um momento de interação entre os alunos que lá estão e os que chegam, alguns de pára-quedas para falar a verdade. Só não acho que a forma como alguns cursos fazem seja a melhor. Durante a semana tivemos 3 aulas, Epistemologia, introdução a antropologia e História Economia Política I. Nestas 3 aulas foram pedidos 3 livros para serem lidos. Um eu já li. “O que é Etnocentrismo”. O livro fala basicamente do "eu" e o "outro" O eu sempre tende a achar que sua cultura é superior a do outro.

Após uma semana e as diversas brincadeiras proporcionadas pelos veteranos, já estamos bem enturmados, eu particularmente já conheço quase todos. Acho que farei boas amizades durante este curso.

Trarei algumas das discussões que rolarem no curso para este blog.

Valdean
Foto: Arquivo da UERJ

8 de março de 2008

Peça O Despertar

A Maré é composta por 16 comunidades, com um total de 130 mil habitantes e no quesito cultura esta muito bem representada. Temos atores, dançarinos, artistas plásticos, poetas, músicos, modelos, fotógrafos... Mesmo assim, ainda somos vistos pelo que não temos, somos sempre vistos pela falta, pela carência. Mas, temos esperança que essa forma de nos ver um dia mude e para isso o povo daqui tem feito sua parte, seja no teatro, na dança, na música, na fotografia, no audiovisual, no esporte e em outras atividades artísticas e não artísticas.

Recentemente escrevi um relato para o site do Observatório sobre a Peça de teatro "Qual É a Nossa Cara"? da CIA Marginal, venho novamente para escrever sobre O Despertar. Ambas apresentadas na Casa de Cultura da Maré. A peça O Despertar foi apresentada nos dias 8 e 9 de março de 2008, em homenagem ao dia Internacional da Mulher. A peça O Desperta aborda o tema da violência domestica, uma realidade vivida por milhares de mulheres. O enredo da peça acontece em uma favela, à obra aborda ainda outras violências vividas pelos moradores desses espaços.

Personagens

O enredo da peça gira em torno de Maria. Maria é casada com Antônio com quem tem dois filhos. Antônio é um homem machista e violento, ele acha que o dever da mulher casada é obedecer e servi exclusivamente ao marido. Maria influenciada por sua amiga de infância Joana que é professora e feminista, volta a estudar e a fazer aulas de dança, realizando um antigo sonho. Além de voltar a estudar e fazer aulas de dança Maria ainda consegue um emprego na academia em que dança. A partir desse ponto a relação de Maria com Antônio se agrava. Antônio “cabra macho” não se conforma em ver sua esposa fazer tudo o que ele considera ser coisa de mulher sem prestigio. Antonio passa parte de sua vida nos bares bebendo, ao ver sua esposa trabalhar, estudar e fazer aulas de dança passa a agredi-la com mais freqüência. Maria é encorajada por Joana a denunciá-lo, mas desiste por medo do companheiro. Maria apaixona-se por Reinaldo seu professor e patrão. Antônio ao descobrir fica enfurecido e tenta matar Reinaldo.

A peça

A peça foi escrita por Kelly Regis, inspirada na lei nº 11.340/06, conhecida como "Lei Maria da Penha" e adaptada por Ivano Manzan. A pesar de tratar de um assunto de interesse publico não recebeu nenhum apoio financeiro, foi realizada graças ao empenho e a boa vontade dos artistas em levar a arte ao publico. O cenário foi todo produzido com materiais recicláveis, desde as paredes até os bancos utilizados na decoração da casa da personagem Maria.

Além da apresentação, também fotografei alguns dos ensaios, acompanhei de perto o trabalho dos atores durante as duas últimas semanas de preparação, os esforços dos artistas para a exibição da obra foi árduo. A luz e som foram montados faltando menos de quatro horas para a apresentação de abertura. A peça tem uma duração de uma hora e trinta minutos, algumas das cenas deixaram a desejar devido as condições do espaço e a precária iluminação. Os artistas merecem aplausos por suas atuações dentro e fora do palco. Para se realizar uma obra de arte com a complexidade que é O Despertar é preciso dos recursos necessários. É preciso ainda de um espaço adequado, coisa que a Maré não tem.

Participação Especial

A peça contou com a participação especial de ex-integrantes do Corpo de Dança da Maré. O corpo de Dança foi um grupo que teve seu auge nos anos de 2000 a 2004 O grupo chegou a ter 70 dançarinos e realizou três grandes espetáculos apresentados no Rio e em São Paulo (Mãe Gentil 2000 / Folias Guanabara 2001) e Dança das Marés em 2002. Ultimo grande espetáculo do grupo.

O corpo de Dança da Maré é um exemplo, sem incentivos os artistas não chegam muito longe. De nada adianta boa vontade, coisa que não falta no grupo da peça O Despertar. É essencial que grupos como Cia Marginal, O Despertar e outros recebam apoio financeiro para continuarem produzindo seus trabalhos que são de suma importância para o desenvolvimento da comunidade. Assim se constrói e fortalece cidadania.

Temos esperança que as favelas um dia sejam vistas pelo que tem de melhor: na música, na dança, nas artes plásticas, no teatro, no esporte e nas demais atividades que nos engrandecem. Mas para isso acontecer, além da garra que sempre foi uma marcar das pessoas desses espaços é preciso que sejamos vistos pelo que temos de melhor, e não da forma simplista e preconceituosa que somos vistos.

Mesmo diante de todos os problemas a peça O Despertar foi um belo espetáculo apresentado a comunidade da Maré. Quem não viu ainda terá a oportunidade de ver, pois o grupo pretende apresentar a obra em outros espaços do Rio de Janeiro.

Galeria de fotos "Peça O Despertar"

Valdean