29 de junho de 2008

Escola Nacional Florestan Fernandes

Entre os dias 7 e 8 de junho estive na Escola Nacional Florestan Fernandes, escola do MST em Guararema, município de São Paulo. Na ocasião fotografei as atividades do Programa Nacional de Formação da Juventude da Classe Trabalhadora. O programa é oferecido pelo MST a jovens da classe trabalhadora do Rio de Janeiro e tem como objetivo oferecer lhes uma formação política. O movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) luta pela Reforma Agrária e pela construção de uma sociedade mais justa, sem exploradores nem explorados, formalmente o movimento existe há 24 anos, mas diante da profunda desigualdade social existente no Brasil a necessidade é anterior e atualmente a importância do movimento é notável.

Mas nem todos vêem no movimento essa importância, prova disso são as abordagens feitas por alguns veículos de comunicação que geralmente atribuem ao movimento fatos que não condizem com sua natureza. Colocando assim, sobre os ombros do movimento e conseqüentemente sobre as costas dos trabalhadores os estigmas de baderneiros e invasores de terras. Uma clara tentativa de caracterizá-lo como um movimento criminoso e os reflexos dessas abordagens são facilmente percebidos no cotidiano. Ainda no Rio um amigo ao saber da minha ida a escola perguntou-me se nesta o movimento ensinava a invadir terras. Em parte, a visão de meu amigo é o reflexo da ideologia incutida na população.

Na programação do encontro estava previsto: mística, visita guiada a escola e uma oficina com o Teatro do Oprimido, principal atividade do encontro. A mística foi à atividade inicial, na ocasião apresentada por um grupo de trabalhadores bolivianos que visitavam a escola. A mística é um ritual tradicional do movimento e é também um momento de integração. A visita guiada iniciou na biblioteca que tem catalogado por volta de vinte mil livros, com os mais variados temas, esta, além de atender as demanda da escola também é aberta à comunidade, assim como outros espaços da instituição, por exemplo, um campo de futebol. Da biblioteca seguimos para conhecer outros espaços: alojamentos, lavanderia, um biodigestor e um espaço onde serão construídos dois anfiteatros e por ultimo a Ciranda Saci. Ciranda é o nome dado pelo MST a templos e espaços educativos dos “Sem Terrinha” da faixa etária dos zero aos seis anos. O termo “ Sem Terrinha” é a afirmação da identidade dos membros do movimento desde criança.

Na Ciranda assistimos um vídeo sobre a construção da escola, através deste vídeo conhecemos o projeto arquitetônico da instituição que além do cuidado ambiental ainda preocupou-se em ensinar a técnica usada aos trabalhadores da obra, uma vez este de posse do conhecimento o replica em suas respectivas comunidades. É como diz o poema “o operário faz a coisa e a coisa faz o operário”. Verdadeiros “operários em construção”.

Antes de seguirmos para a atividade principal, oficina de teatro, o grupo de aproximadamente 100 pessoas foi dividido em quatro subgrupos. Cada subgrupo ficaria responsável por uma tarefa domestica da instituição, isso faz parte do método pedagógico da instituição, todos que pela escola passam, seja estudante ou visitantes participam deste processo. A escola vê essa atividade como fator de integração e de respeito pelo espaço, visão da qual compartilho completamente, além da participação, integração e respeito pelo espaço, gera também a sensação de participação plena, participação que ocorre em todas as atividades. Após a divisão das tarefas de cada grupo deu-se inicio a oficina de teatro ministrada pelo CTO-Rio. O CTO-Rio é um centro de pesquisa e difusão, que desenvolve metodologia específica do Teatro do Oprimido em Laboratórios e em Seminários. Nos laboratórios e seminários são elaborados e produzidos projetos sócio-culturais, espetáculos teatrais e produtos artísticos, tendo como alicerce a Estética do Oprimido .O Teatro do Oprimido usa para a criação dessas cenas técnicas chamadas de “jogos” e “exercícios”. O importante não é o teatro em si, mas as discussões que se gera durante o processo de criação.

Vejo uma clara tendência quando o termo “invasão” de terras é usado em relação às ocupações de terras improdutivas realizada pelo movimento em nome da reforma agrária. A terra deve exercer uma função social, a meu ver ocupar um espaço de terra que deverias cumprir tal papel e não cumpre é mais que legitimo é, na verdade necessário, pois em um país como o Brasil, com dimensão continental e com vasta riqueza natural é inadmissível que apenas um pequeno grupo da sociedade tenha acesso a terra. Fiquei dois dias na escola e não ouvi qualquer menção a invasão de terras, o próprio espaço da escola foi comprado, graças a colaboradores como o fotógrafo Sebastião Salgado. Já no campo da educação não acredito que o MST queira cometer os erros que a educação formal comete e nos tem levado a situação que vivemos. Ainda no encontro em algumas conversas informais compartilhei com alguns a visão de meu amigo em relação ao movimento e quase todos com quem compartilhei já haviam vivenciado situações parecidas.
Francisco Valdean

27 de junho de 2008

Um ano da Chacina do Alemão

Hoje fez um ano da chacina do Alemão onde foram mortas dezenove pessoas e vários feridos, dezenove são os números formais divulgado pela imprensa, os moradores da comunidade falam de números maiores. E para que a sociedade não esqueça dessa terrível barbaridade diversos grupos e instituições de direitos humanos e membros da sociedade civil se reuniram em freta a Igreja da Candelária após a celebração de uma missa em homenagem as vitimas da china. No mês que vem fará quinze anos da chacina da Candelária com oito mortos. Também há 15 anos foram executadas vinte e uma pessoas em Vigário Geral. três anos mais vinte e nove em Queimados e Nova Iguaçu. Recentemente mais três mortos no Morro da Providência. A chacina do Alemão foi resultado da mega-operação realizada pela PM em conjunto com a Força Nacional de Segurança no complexo do Alemão ano passado.

Infelizmente esses não são fatos da atualidade, no passado aconteciam da mesma forma e irão continuar no futuro, a não ser que a sociedade brasileira entenda que os valores que nós nos fundamentamos é o que gera tantas vítimas. Vítimas essas que tem uma origem, um histórico. Pessoas que são impedidas de fazerem parte da história da nação e até fazem, mas como números das diversas violências cometidas contra elas. Não são só vítimas de morte, são vitimas da falta de distribuição de renda, são vitimas da falta de políticas de habitação, são vitimas por não terem acesso aos bens culturais e educacionais do país.

Fotos da manisfestação