15 de setembro de 2008

Era Uma Vez...


Era Uma Vez... uma cidade muito engraçada que não tinha nexo não tinha nada. Todos podiam viver nela, desde que, uns no asfalto e outros nas favelas...

Esta cidade é mesmo muito engraçada, para não dizer confusa. A desigualdade é gritante, bairros luxuosos e pobres a poucos metros um do outro. Milhares de pessoas vivendo na mesma cidade, mas com realidades bem distantes.

Outro dia a convite de uma amiga, fui ver o filme “Era Uma Vez...” que conta a história de amor de dois jovens, próximos em espaços e distantes socialmente. Estilo Romeu e Julieta. O jovem morador do Morro do Canta Galo e a jovem moradora da Vieira Souto, ambos os endereços em Ipanema no Rio de Janeiro. O amor dos dois é quase impossível, diz a sinopse do filme. Essa era a história que eu esperava ver no cinema. O filme é dirigido por Breno Silveira, o mesmo diretor do filme “Dois Filhos de Francisco” e protagonizado pelo Thiago Martins, integrante do Grupo nós do Morro.

Dé, interpretado por Thiago, é o personagem principal do filme, filho de mãe solteira que alem dele tem mais dois filhos. Todos sofrem com o trafico de drogas que domina a comunidade. Um dos três irmãos (Beto) sonha ser jogador de futebol, mas é morto por um jovem aspirante a traficante, que sem grandes explicações ou motivos convincentes o mata. Carlão irmão mais velho de Dé para não vingar a morte de seu irmão e com medo de também ser morto é obrigado a sair do morro e por não tem onde morar vai morar na rua, e lá pelas tantas, mesmo sendo inocente é preso por porte ilegal de arma. Anos mais tarde foge da cadeia e volta com o objetivo de invadir a favela e vingar a morte de seu irmão. Ou seja, pegando a história dos três irmãos, tirara-se a seguinte conclusão: o favelado não tem muitas saídas, mesmos que faça coisas boas e mostre que é batalhador e tudo mais... em algum momento terá que seguir seu destino, o crime, ou a morte cruel. Isso fica claro no final do filme. Não sei até que ponto é uma critica, ou se é mesmo dessa forma que os criadores do filme vêem os moradores de favelas.

Numa entrevista o diretor fala da proposta do filme. Contar a história de amor de dois jovens de classes diferente. Mas o filme acaba tendo como plano principal de abordagem o trafico na comunidade. Uma breve observação das obras cinematográficas produzidas, pelo menos as mais veiculadas, nos da à impressão de que parece impossível contar as histórias das favelas sem antes falar do trafico de drogas. O trafico é tão fascinante que até os filmes que não se propõem falar dele acabam fazendo deste o tema principal das obras, como se os moradores das favelas fossem incapazes de ter uma história sem a interferência deste. Entendo que o trafico seja um assunto que precise ser abordado pelas obras cinematográficas, afinal é um problema da nossa sociedade, mas abordá-lo da forma como se aborda, é na verdade reforçar alguns estereótipos já estabelecidos.

O filme muito, timidamente, toca em algumas questões ”problemas” da cidade do Rio: a desigualdade social a forma como a policia atua nas favelas, o preconceito do rico para com o pobre... O destaque é mesmo é o trafico, como se esse fosse o fato que gera os demais. O filme não difere em nada das demais obras produzidas com o objetivo de contar as histórias das favelas.

A obra Romeu e Julieta de Willian Shakespare conta a história trágica de dois jovens pertencentes a famílias rivais (Capuleto e Montecchiou) que se apaixonam e no final morrem. O filme Era uma Vez... tem o mesmo final e talvez tenha a mesma pretensão. Mas não acredito que a sociedade carioca aprenda com a perda dos jovens da Cidade, perdemos milhares de pessoas todos os anos. É bem verdade que dependendo da morte e de que classe essa pertença repercute e choca mais, mas me parece que aqui pouco se aprende com essas perdas.

Na mesma entrevista o diretor diz que o filme não é para retratar a violência. Bom, eu diria que ele não conseguiu mostra o que queria, pois o que mais aparece no filme é o que o senso comum chama de violência.

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