11 de agosto de 2010

Teatro da Maré mostra a força da favela


A Cia Marginal de Teatro, grupo formado por atores-moradores da Maré, maior bairro popular do Rio de Janeiro, realiza ações para democratizar o seu método de trabalho.



Por Marcelo Salles





Tudo escuro. Silêncio absoluto. Uma ponta de cigarro acesa dança, em movimentos cadenciados. Aos poucos, a luz se abre. E rufam os tambores! No centro do palco, surge, vagarosamente, uma pomba-gira. Sentada com seu enorme vestido branco, caprichosamente deitado em círculo, ela balança a cabeça de lado a lado, enquanto fuma e bebe. Ela bate duas palmas e duas ajudantes entram em cena. Mais duas palmas e elas enchem seu copo. De repente, uma pastora evangélica, dessas bem escandalosas, entra no palco. Sua pregação coincide com a saída de cena, lenta e gradual, da pomba-gira. Com os olhos esbugalhados, a pastora grita: “Aceite Jesus no seu coração!” e outras palavras de ordem. A transição se completa. A pomba-gira e suas ajudantes saem completamente de cena, e a pastora conquista, definitivamente, o palco.



O trecho acima está em cartaz com o espetáculo Qual é a nossa cara?, da Cia Marginal de Teatro. Trata-se de uma das muitas histórias de Nova Holanda, uma das dezesseis favelas do Complexo da Maré, conjunto habitacional às margens da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, que reúne mais de 130 mil pessoas. A passagem conta, com beleza e rigor histórico, a substituição das religiões de matriz africana pelas neopentecostais no Rio de Janeiro – processo que muitas vezes expulsou das favelas, com violência, os praticantes de umbanda e candomblé.



A peça conta diversas histórias de Nova Holanda, entrecortadas por depoimentos pessoais dos atores, que são também moradores da Maré. O processo de criação que deu origem ao espetáculo teve como ponto de partida uma pesquisa de campo realizada nesta favela. Durante dois ou três meses os atores entrevistaram alguns dos moradores mais antigos da comunidade até se chegar à formatação das histórias. “Depois, fizemos um processo de seleção e reflexão em cima desse material”, explica a diretora do grupo, Isabel Penoni. “E juntamos histórias de 20, 30 anos atrás, mas que são atualizadas pelos depoimentos dos atores”.



Um deles, o da brilhante atriz Priscilla Andrade, de 24 anos, mostra que esse grupo de teatro não é mais um desses que se proliferam nas favelas pelas mãos de ONGs comprometidas apenas consigo mesmas. Priscilla fala de seu primeiro Fórum Social Mundial, narra a evolução do engajado bloco carnavalesco Se Benze que Dá e lembra de quando moradores fecharam a Avenida Brasil após o assassinato do menino Renan, 3 anos, durante operação policial em 2006. “A gente também faz protesto!”, afirma.




Para ler o texto completo e outras matérias confira a edição de julho da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

0 comentários:

Estão por aqui