14 de dezembro de 2010

A favela na telona pintada por “nós mesmos”?

Sobre o filme 5 vezes favela agora por “nós mesmos”

No dia 11 de setembro de 2010, por volta das 11:00 horas da manhã uma platéia de 100 jovens gritavam em um só coro pedindo novamente a exibição do filme 5 vezes favela agora por “nós mesmos”. O ocorrido se deu ao final de uma sessão no Ponto Cine de Guadalupe quando o filme foi exibido para um grupo de jovens moradores da Maré.

No filme 5 vezes favela agora por “nós mesmos”, elementos do universo “favelado” são apresentados de uma forma que não são em outros filmes que falam sobre favela, e isso poderia ser o diferencial da obra, mas não é. Assim como os tantos filme já produzidos sobre as favelas o agora feito por “nós mesmos”, repete a maioria dos equívocos já visto em outras obras que tem como tema a favela. E por este aspecto não vejo muita diferença entre este filme e os demais filmes.

Em 2004 ingressei no projeto Imagens do Povo da Instituição Observatório de Favelas, onde passei por um processo de formação em fotografia no curso da Escola de Fotógrafos Populares. Além da formação técnica o curso focava na formação crítica das produções sobre os espaços “favelados”. Apesar de ainda ser uma atividade em processo tenho uma certeza, as nossas produções, na medida do possível, não podem, ou pelos menos, não devem repetir os equívocos das produções que criticamos pelas suas incoerências.

Há pelo menos duas formas de ver o filme 5 vezes favela agora por “nós mesmos”. No tocante obra de arte, na questão que envolve técnica, considero um bom filme. Porém há uma outra dimensão a ser vista na obra. Os produtores argumentam que não é um filme representativo, por tanto não se compromete com uma realidade da favela, é uma ficção que fala de favela. Mas não há como negar que o filme reforça um determinado retrato do “favelado” e de suas questões. É este aspecto do filme que me interessa.

Junto com o filme foi publicado um livro de mesmo nome 5 vezes favela agora por “nós mesmos”. Na seção dos diários das oficinas encontrei um trecho documentado no dia 11 de maio de 2009 na oficina de ficção ministrada por Fernando Meireles. Vendo o filme do lado de cá é impossível apreciá-lo só como obra de arte. É preciso que se olhe também para o retrato que este reforça da favela. E ainda mais quando este retrato é pintado por “nós mesmos”. O trecho do texto em questão se encontra na página 68 do livro registrado no 29ª dia de oficina. Segue reprodução.

Segunda-feira, 11 de maio de 2009, 
29ª dia de oficina, Ficção com Fernando Meirelles

 “Fernando disse que não devemos ter pudores para construir uma ficção. Podemos mudar os personagens ou as cenas, se isso tornar o filme melhor. Outra coisa importante é o erro. O erro é a vida do filme, o certo é chato demais. Ainda em cidade de Deus, o Buscapé era o personagem principal, mas o Zé Pequeno rouba a cena. Esse é um exemplo de um erro proposital que funciona muito bem"

A ideia de “erro proposital” em nome do sucesso da obra dá conta de um questionamento que tinha quando participei da oficina de roteiro do episódio “Deixar Voar”, na etapa inicial do projeto “5 vezes favela agora por eles mesmo”. Na época questionava que as produções cinematográficas sobre favela pecam ao transformar assuntos aparentemente secundários em assuntos principais, valorizando questões estranhas, que pelo menos em discurso não devia ser uma preocupação da arte ou do artista que cria tais obras. Além do mais tinha em meus questionamentos o argumento de que as histórias das favelas, verdadeiramente, não tinham vez nesse tipo de cinema, elas estão lá, mas estão sufocadas em nome de outras questões. Na “telona” as histórias das favelas, quase sempre, são correlacionadas com a história do tráfico e a confusão é tanto que a história do trafico parece ser a própria história das favelas cariocas. E isso, a meu ver, não deveria ser um ponto em que um filme feito por nós devia seguir, a não ser que este fosse claramente o recorte.

Numa leitura mais detalhada dos episódios que compõem o longa 5 vezes favela agora por “nós mesmos” o que questiono parece ficar mais claro.

Episódios "Fonte de Renda"

Maycon, um jovem morador de favela, após ingressar num curso universitário, diante das dificuldades enfrentadas. Dificuldades reais que nós jovens de origem pobre enfrentamos para permanecer em um curso universitário. Até esse ponto não há qualquer problema, o problema começa quando Maycon começa vender drogas para se manter no curso. Entendo a crítica sobre a condição do estudante universitário pobre, mas o tal do “erro proposital” transforma a crítica em um mero elemento da trama e o que passa a prevalecer é o estigma do “favelado” culpado pelo comercio de drogas, reforçando a imagem de “culpa” das favelas pelo tráfico de drogas na cidade. Conheço universitários pobres / “favelados” que enfrentam muitas dificuldades para continuarem num curso universitário e a solução quase nunca é vender drogas e tenho dúvidas se fariam isso mesmo em nome da boa causa: formação universitária. Muitas das vezes é preferível desistir, que é o mais comum. Por tanto há no episódio um “erro proposital”, consciente ou inconsciente ele está lá. A crítica a dificuldade do pobre universitário poderia, na minha concepção, ser feita sem reforçar velhas imagens construídas sobre os “favelados”, garanto que no universo dos universitários pobres se consegue encontrar histórias de “fonte de renda” muito mais inspiradoras.

Episódio "Arroz com Feijão"

Dois meninos, Wesley e Orelha começam uma espécie de aventura para comprar um frango para presentear o pai de Wesley que há tempos não come carne. É engraçado e causa risadas. Apesar de singelo é um episódio que aborda questões complexas do universo do “pobre”. Neste também existe o “erro” que não tem as mesmas implicações dos demais. Os meninos “favelados” são roubados por jovens “não-favelados”, o fato contraria a ideia preconceituosa do “favelado” delinqüente, mas ao mesmo tempo a ideia da delinqüência é reforçada com o roubo do frango. Seguindo a lógica com que os fatos são apresentados nos episódios é possível fazer a seguinte leitura: as condições adversas levam o ator “favelado” a cometer delitos, mas na primeira oportunidade redime-se, fazendo a coisa certa. Esse é um fato também presenciado nos episodio “Fonte de renda”, a última “carga” é por conta de Maycon. É verificado no episódio “Acende a Luz”. Após o problema da luz parcialmente resolvido, o homem feito de refém é convidado a comemorar com os moradores.

Episódio "Concerto para Violino"

O episodio “Concerto para Violino” de um ponto de vista, estritamente artístico, é a meu ver o mais plástico e abordar com alguma poesia a história de amizade de infância de 3 amigos. Mas é o episódio que levou ao extremo o tal do “erro proposital”. A história dos 3 amigos de infância (um se torna policial, outro traficante e a menina violonista) é brutalmente dilacerada em nome sei lá do que. Mas pensando bem que tipo de mercado do cinema se interessaria pela história de amizade de 3 “favelados”? Na minha concepção é o episódio que toca nas questões de mais complexidades existente no universo social das favelas cariocas. A questão de uma forma moralista é abordada no início do filme na fala do personagem Maycon quando diz que a favela é o lugar “Onde o certo e o errado se misturam. - Onde é no mundo que isto não ocorre? A tolice do filme é a valorização da história do tráfico. Isso é um “erro proposital”? liberdade artística? Ou será que a história foi contada assim por ser impossível contá-la de outra maneira? A Resposta é simples, é possível contá-la de outra maneira. No dia 9 de novembro assisti na “Mostra Cinema Negro” o documentário “Copa Vidigal” de Luciano Vidigal, mesmo diretor do episódio “Concerto para Violino”. O “Copa Vidigal” fala de uma copa de futebol ocorrida no morro do Vidigal. O que motiva Cipa, um líder comunitário realizar a copa é um conflito entre facções criminosas ocorrida tempos antes, e a abordagem da mesma questão é diferente. É claro que tem que se considerar que o “Concerto para Violino” é uma ficção e o “Copa Vidigal” um documentário, um foi feito para o cinema e o outro não, um tem orçamento e o outro não. Mas isso só reforça o que venho questionando, não será na “telona” que “nós mesmos” contaremos nossas histórias, e mesmo que sejamos convidados a contar serão contadas como foi no filme 5 vezes favela agora por “nós mesmos”.

Episódio “Deixa Voar”

Este foi o episódio que em 2006 contribui escrevendo a primeira versão do roteiro. Quando em 2006 fiquei sabendo da ideia me empolguei, vi na proposta a possibilidade de contribuir com um filme que retratasse as histórias ocorridas nas favelas segundo nosso ponto de vista. Mas logo descobri que nossas histórias neste formato de cinema, até o filme 5 vezes favela “agora por nos mesmos” estão fadadas a serem contadas assim. Neste tipo de cinema a possibilidade de “nós mesmos” contarmos as nossas próprias histórias erroneamente são muitas, primeiro por não haver interesse do mercado financiador por histórias humanas existente nas favelas, até há interesse, desde que, se inclua nestas os “erros propositais”. É assim no filme “Cidade de Deus”. É assim no filme “Era Uma Vez”. É assim no filme “Show de Bola”. É assim no filme “Maré Nossa História de Amor” e em todos os filmes que eu já vi sobre favela. E por incrível que pareça é assim no filme 5 vezes favela agora por “nós mesmos”. O “erro proposital” nos outros filmes é esperado, agora o “erro” aparecer no filme feito por “nós” é no mínimo curioso. Se é um “erro proposital” poderia não ser, por tanto, não é um problema da sétima arte em si. O “erro” é um mecanismo que pode ser manipulado, segundo a vontade do artista, como é no caso do episódio “Arroz com Feijão”.

Voltando ao episódio “Deixa Voar”. A pipa voa e cai na favela dos “alemão”. Flávio é coagido a buscar a pipa. Eu votei no argumento “Deixa Voar” do Cadu, por ver neste argumento a possibilidade de falarmos de uma questão presente no cotidiano da Maré. Na minha concepção podíamos contar a história da pipa com toda poesia e sem deixar de ser crítico com o problema que aborda o episódio, e principalmente sem cair nas “pastelagens” de outros filmes. Na época nem sabia se tudo isso que imaginava era possível colocar em um filme de 20 minutos, mas pelo menos era movido pela vontade de que era possível.

Entendo que uma obra de arte não pode responder pelas questões que estão além dela, mas também não pode, quando questionada ter como resposta que questões políticas não é coisa da arte. Isso simplesmente não é verdade. Não podemos nos apoderar da arte e repetir o que dizem sobre nós, isso é no mínimo incoerente com nossas histórias pessoais e com as histórias que nos inspiram. Se as histórias eram por nós mesmo, pensava que devíamos pelo menos nos esforçar para fazer diferente. Se o formato do projeto 5 vezes favela suportava é outra questão.

Episódio "Acende a luz"

A sensualidade marca o episódio. Os moradores com um problema de energia na noite de natal fazem de refém um funcionário da companhia elétrica.

A questão problemática se revela na fala dos personagens, não tenho intenção de entrar no universo psicológico dos personagens, mas julgo interessante analisar também em outro momento. As falas no episódio reforçam a ideia da favela como o lugar “perigoso”.

- isso aqui é favela! Diz um dos personagens da ficção na tentativa de intimidar o funcionário da companhia elétrica. O medo é também um fato presente no psicológico do personagem feito de refém. A questão vista minuciosamente pode ser verificada em outras falas nos demais episódios do longa.

Em linhas gerais, todo o filme reforça um retrato dos “favelados” e de suas questões. A condição leva o “favelado” a cometer delitos. Seja vendendo droga, seja roubando uma galinha, seja na condição de traficante, ou quando fazemos de refém um trabalhador de uma companhia elétrica que não nos presta um serviço adequado.

Considero o filme importante, não pelos mesmos motivos que considera os produtores e boa parte da crítica. Acho que a obra enquanto documento artístico tem sua importância, ainda mais quando este documento em parte foi escrito por “nós”. Quanto ao retrato que reforça do universo “favelado” não me agrada muito. Numa avaliação fria levando em conta só os elementos artísticos e o fato de ter sido, em parte, feito por moradores de favela a obra merece aplausos e compartilho o mesmo sentimento que presenciei lá no Ponto Cine em Guadalupe, no dia 11 de setembro, quando o filme foi exibido para os jovens moradores da Maré. Espero que muitos filmes sobre nós sejam feitos por nós mesmos. Tendo este como parâmetro, acho que neste tipo de cinema não vamos contribuir com as rupturas dos estigmas, na verdade se “nós” não criarmos de forma crítica, neste tipo de cinema "nosso" papel será de legitimadores do que historicamente se diz sobre nós. Das varias críticas que li sobre o filme o que sobressai, quanto ao diferencial da obra não é em termos de conteúdo e sim pelo fato de ter sido o filme feito por moradores de favelas. Esse é um aspecto importante? Evidente que sim. Se o filme tivesse sido escrito e dirigido por 5 jovens de classe média como é o caso do primeiro “5 vezes favela” talvez nem perdesse meu tempo escrevendo qualquer opinião a respeito. Mas a obra leva em seu título o “agora por nós mesmos” e isso é importante. As obras por nós mesmos, na minha concepção, merecem empenho redobrado e não é por causa da ideia tosca de que não “somos capazes”, se assim fizermos estamos reforçando a tola e descabida ideia. O empenho tem que ir além da técnica e estética. O empenho também deve ser no nível político.

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