27 de maio de 2011

Tabuleiro das conversações: Morro da Baiana, café e churrasco...


Por Léo Lima*

Sexta 15 de abril de 2011, Morro da Baiana, Conjunto de favelas do Alemão, fotografando com o amigo Edmilson de Lima. De repente, um calorão do Rio de Janeiro às 09h00min da manha, outono que mais parece um verão radiante, poderíamos ter pensado: Vamos cair na água, tomar um bom banho de piscina na casa de algum vizinho!?

     É, não pensamos. E subimos as escadarias do Morro da Baiana, quando o vento nos trouxe o enredo.

     As vozes eram de um pai (Sr.Pereira) e seu pequenino filho (Lucas, 2 aninhos). Pessoas que ainda não haviam nos visto no local, e claro, nós também não! Estavam no cantinho de uma quadra de esportes no alto do Morro, o pai de shorts e sem camisa, seu filho usando uma camiseta, uma fralda e uma bola nas mãos.
     Histórias eram desvendadas, enquanto a bola começava a rolar. O PAC era um dos assuntos, a segurança era elogiada e a bola rolava. Sol forte e sombra não muito fresca, era um Cearense de muita garra com 17 anos de perdas e vitórias no Morro da Baiana, quando do nada... a bola parava. Era o pequenino Lucas, descansando suas pernas fortes e baixando a bola. Até um breve tchau por de trás do alambrado e uma foto ao lado de seu amado papai.

     Cores, muitas cores. Vermelhas, azuis, amarelas, verdes iam surgindo ao longo da subida. A Paisagem dos postes cheios de fios, interligados com pombas cinzas e passarinhos em gaiolas. Pelos becos, pelas vielas e muitas escadas, até que: "Oh Lúcia!" Era a vizinha chamando a cabeleireira, cearense com mais de 10 anos de Morro da Baiana. Ultra simpática, senhora de sorriso fácil, mamãe de 3... Segundo ela, filhos lindos. Ai de quem duvidar!
     Lúcia possui um salão de beleza em sua própria casa. Onde lá trabalhava as sobrancelhas de uma cliente para a noite que viera.
     Ela nos contava que tem muito medo do bondinho do teleférico, que passa por cima de sua laje. Pra ela, tal obra será benéfica somente para os turistas:
     _ Ah, sei lá?! não se sabe o valor disso aí, quanto que um morador deverá pagar por isso? Dizem por aí que turista é R$ 50,00. Sinceramente será legal pra eles, pra eu não.
     Assim com vários moradores elogiam as obras e os benefícios, muitos outros criticam e por muitas vezes não são ouvidos.
     São moradores e moradoras que nos recebem com cafezinhos quentinhos e deliciosos. Com largas histórias, e estórias muito emocionantes de seus contos e vidas. Fora o cafezinho que causa formigamento nas extremidades do corpo de tão bom!

     Descemos ... E nos encontramos com Dona Rosana, 38 anos, nascida e criada no Morro. Mulher de olhar brilhante, incrível! Conversando com Dona Léia, sua vizinha.
     Eram vizinhas um tanto quanto amedrontadas com o fato de o bondinho estar acima de suas cabeças e o futuro da tal obra. Tava aí, mais uma vez o PAC era o assunto.
     Elogio às oportunidades de cursos para os jovens, o espaço do Morro da Baiana que ficou bem mais amplo. Mas as reclamações de falta de pessoas no local eram recorrentes, abandono à noite, a própria obra do teleférico com cunho turístico e a derrubada de um muro que fazia com que a água da chuva não passasse. Segundo Dona Rosana quando vier uma forte chuva, essa mesmo poderá inundar sua casa toda:
     _ Antes não acontecia isso! Espero que "eles" pelo menos venham me dar alguma solução, o ralo daqui não vai agüentar!

     (Observação: Na noite de 25 de abril, de 2011 ocorreu uma forte chuva no Rio de Janeiro. Ligamos para Dona Rosana na manhã do dia 25 para saber se estava tudo bem. Pelo telefone ela nos contou que se não estivesse ficado acordada a madrugada inteira, a terra que descera do Morro entupiria o ralo e inundaria sua casa. Estava tudo bem, apesar da preocupação que se tornará rotineira toda vez que chover no local.)

     Os responsáveis pelas obras não perguntaram se os "beneficiados" gostariam de tais obras, talvez um curso profissionalizante de como pegar o bonde andando.
     Braços recolhidos, imagens guardadas para sempre, bate papo descontraído e sério. Sorrisos, saudades dos vizinhos, 2 pães com mortadela, 2 copos de refrigerante, papo, PAC e um convite para o churrasco do dia 23 na casa Verde.

     Do alto do Morro da Baiana, saímos desse grande tabuleiro das conversações com a certeza de que ganhamos, do que queremos e de como aprendemos com a história do outro, com a palavra dele.



* Léo Lima é fotógrafo da Agência Imagens do Povo e participa do coletivo Favela em Foco.

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