27 de julho de 2011

Olhando daqui reconheço muito pouco da Maré descrita



Em 20 de setembro de 2010 o Portal IG publicou um perfil do jovem Chicão, músico filho da cantora Cássia Eller. Na ocasião o jovem se apresentava com a banda "Zarapateu" na Lona Cultural Herbert Vianna, localizada na comunidade Nova Maré. Na mesma ocasião o site também publicou um segundo texto descrevendo o lugar onde o músico se apresentaria.

Ao ler o texto que descreve e localiza a Maré (olhando daqui) é quase impossível não ter vontade de opinar sobre as informações, principalmente, sobre o tom preconceituoso impresso no texto.

A abordagem que o texto faz da Maré é uma abordagem comum e veiculada diariamente nos veículos de comunicação da cidade. Mas alguns casos chamam mais atenção que outros, como no caso de uma matéria chamada “Trocando armas por socos” publicada na revista Playboy, no ano de 2005, esta fez uma abordagem parecida com o texto publicado em 2010 no Portal IG.  

Colocado as questões escrevo a seguir comentários a partir de trechos dos textos em questão. Abaixo colei linques para os textos referencias.





Portal IG
20/09 - 11:57hs

Por Valmir Moratelli
IG Rio de Janeiro




IG "Não é fácil chegar à Lona Cultural Herbert Vianna
O tom negativo inicial é o anuncio do que se ler pelas muitas linhas de todo o texto. O ar negativo do texto pode ser evidenciado na frase “não é fácil”, e pode ser confirmado pela forma como alguns elementos da vida cotidiana da Maré são abordados pelo repórter. Os elementos eleitos: “valão fedorento”, “divisa marcada por guerras de facções”, “gente para todos os lados”, “ruelas apertadas”, “pessoas armadas”, “muito barulho” e “difícil acesso”.

O valão localizado nas proximidades da Lona, ganha no texto o aspecto de fedorento e a céu aberto. Não é demais dizer que em toda a cidade não é incomum encontrar valões a céu aberto. Quanto ao cheiro: - em um valão corre coisas sujas que não podem ter aroma de flores do campo.

IG "O odor de esgoto a céu aberto é sentido de longe"

O olhar da vivencia pode ter “vícios” e não enxergar determinados aspectos da realidade, mas o olhar turístico leva a equívocos e conclusões preconceituosas. Diariamente passo por este e outros valões da Maré e não sinto cheiro nenhum. Já o amigo repórter com seu olhar torto de turista só conseguiu ver o valão a céu aberto e sentir o odor que exala dele.

IG "ruelas apertadas, biroscas dominando as calçadas com TV’s ligadas e gente para todos os lados"

Aqui a vida é pulsante e é assim mesmo. Qual o problema de ser assim?

IG "Uma moto cruza o caminho em frente com dois homens, um deles parece portar um fuzil. "

O repórter ao ver dois homens numa moto supõe que um deles esteja armado com um fuzil. O jornalista não tem certeza, e admite, “um deles parece portar um fuzil”.  É aquela coisa: primeiro acha e atira e depois pergunta. Recentemente no Morro do Andaraí um homem que fazia reformas em sua casa com uma máquina de furar foi atingido com tiro que partiu de um policial. O policial achou que o homem estava armado, atirou e depois verificou que se tratava de um morador fazendo reparos rotineiros em sua residência. 

Na Maré os exemplos que evidencia a prática “primeiro achar e atirar para depois verificar”, são muitos, só para ficar em casos mais recentes e mais conhecidos: Felipe dos Santos de 17 anos, Matheus de 8 anos e Renan de 3 anos. Todos foram mortos segundo a lógica, primeiro atira e depois verifica.

O mais assustador é que a prática não é só policial. A coisa parece ser uma prática da imprensa também.

IG "Única opção de lazer na comunidade"

Isso não é verdade. A Lona nunca foi e se pretendesse ser a única opção de lazer seria um completo e total absurdo, mas a informação do jornalista serve para evidenciar a precariedade da produção de informações sobre as favelas e a dificuldade das favelas serem percebidas como parte da cidade. Mas, quero acreditar que se o repórter tivesse se preocupado um pouquinho com o seu fazer jornalístico teria encontrado informações a respeito do entretenimento na Maré. Se tivesse tentado se informar talvez pudesse ter encontrado informação de que por aqui acontecem inúmeros “shows de forró” improvisados pelos bares e “biroscas”, talvez tivesse ficado sabendo do tradicional  forró da Praça do Parque União. Talvez tivesse encontrado informações sobre os bailes Funks e pagodes que ocorrem pelas ruas da Maré. Se tivesse feito um pouco de esforço teria ficado sabendo dos shows de Rock que às vezes acontecem. Se tivesse prestado atenção nas faixas, talvez tivesse visto até os anúncios das inúmeras festas do tipo: “Tapa na peteca” e mais uma porção de outras atividades que ocorrem na frenética rotina da Maré.

IG "A programação vai do samba ao funk que, curiosamente, não costuma lotar a Lona"

Sobre esse trecho do texto tenho algumas imagens para mostrar do espaço da Lona*.
 
 _________________________________________________________________________



 _________________________________________________________________________


IG  "Não há previsão de ocupação policial na região, nem obras de saneamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)."

Não tenho qualquer informação sobre o assunto, mas acredito que a Maré não entrou no programa por ser considerada uma favela que não necessita de obras urgentes como algumas favelas que entraram no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O que não é inteiramente verdade. Qualquer bairro da cidade precisa de obras constantemente e não pode ser diferente com a Maré.

Para além dos serviços mais básicos existe a questão dos espaços culturais pensados ou fomentados pelo poder público. Por aqui pensado pelo Governo existe apenas uma Lona Cultural que por uma questão de proporção já seria insuficiente. Se nos bairros vizinhos houvesse espaços culturais talvez nem fosse tanto problema, mas o problema é que estes espaços não existem na Maré e nem nas proximidades.

O repórter podia ter voltado seu olhar turístico para a própria estrutura da Lona que é um espaço desconfortável, fica difícil passar mais de uma hora sentado sobre um banco duro feito de cimento e pedra. Assistir a um show de musica ou ver uma peça de teatro num espaço onde a preocupação com a acústica e o conforto parece não ter existido. Ou seja, não é lá um espaço muito convidativo e isto contribui para o esvaziamento em determinadas atividades que ocorrem no espaço.

O que tem a ver o assunto de saneamento básico e segurança pública com uma matéria de perfil de um músico? Particularmente acho que nada, mas acho que Segurança Pública vai além da ocupação policial das favelas e choque de ordem, serviços nas áreas da cultura, educação e oportunidades é a forma correta de tratar a questão da Segurança Pública de uma cidade como o Rio de Janeiro. 

IG "Os organizadores da Lona querem atrair mais gente para o espaço, ainda que esta pareça ser uma tarefa difícil" "Não só pela violência vizinha como pelo complicado acesso"

O “difícil” ou o “não é fácil” norteia o texto do início ao fim, o que leva intuir não ser só uma questão semântica. Quanto ao uso do espaço e sua funcionalidade é uma tarefa de quem o administra. Já a informação do complicado acesso chega ser cômico. 

Pode se chegar na Lona Herbert Vianna por vários acessos. O mais fácil e mais rápido é pela Av. Brasil. Acho que foi esse o caminho feito pelo repórter. Se foi, ele entrou na rua Dezessete de Fevereiro e depois seguiu pela rua Ivanildo Alves, ou seja, é uma reta. Todo o trajeto entre Lona e Avenida Brasil não leva mais do que 3 minutos.

IG "para se chegar ao point da cultura em uma área tão degradada da cidade"

O repórter conclui falando em degradação, fechando o texto com o mesmo tom negativo que iniciou.
Se a intenção do Portal IG era fazer críticas aos serviços públicos, fez na verdade o que a imprensa faz com freqüência: olhar para as favelas por uma lente turva que só consegue enxergar aspectos negativos. É este um ponto de vista possível? Sim, e seria ingenuidade achar que os problemas dos espaços que se convencionou chamar de favelas seja só no nível do olhar. Mas as solução de um problema depende do olhar que se lança para este.

Olhando daqui sou levado a crer que o ponto de vista que só vê negatividade no modo de viver nas favelas, não contribui para superar os problemas evidenciados. Olhar para as questões das favelas implica ter que olhar para as mesmas questões, independentemente qual seja o ponto de vista. O que ocorre no caso do recorte pela via negativa é que esta só enxergar nas favelas as faltas e tributa os problemas evidenciados na conta de quem certamente não é o responsável por estes.

Olhando daqui é isto que tenho a dizer sobre a opinião de um texto que faz uma descrição equivocada, e preconceituosa sobre questões que deviam ser entendidas como uma questão da cidade e não de um bairro.

* As imagens foram captadas na administração anterior a Redes da Maré.

0 comentários:

Estão por aqui