6 de setembro de 2012

Operação na favela



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Início

De manhazinha, enquanto o sol aquecia seus raios e esquentava as cucas frescas dos homens, mulheres, crianças, cachorros, papagaio e periquitos, em andamento uma operação policial na favela. Uma música repetidamente tocava, “My Heart Will Go On”, aquela música triste que faz parte da trilha sonora do filme Titanic.  A música vinha de algum lugar, vinha das entranhas da favela.


Desenvolvimento

Outro dia um amigo disse convictamente, “Lógica de polícia na favela é o Choque no entorno e BOPE dentro".  Rondando o espaço aéreo 1 ou 2 helicópteros. Rondavam as cucas frescas. Por terra cachorros treinados espreitavam situações suspeitas e aguardavam ansiosamente o comando de ataque. Carros pretos, os Caveirões, feito de alguns quilos de metal e de alguns milímetros de blindagem compunham a operação.

Teve morte? Claro que teve! Quase sempre tem.

A polícia diz ao reportador: “eram todos traficantes”.
A mãe desesperada diz ao reportador: “Não! Não eram e eu vou provar”.

A desinformação também é parte do repertório, não saber o que ocorre, o tal do fator surpresa, na lógica policial é o que garante o êxito do ritual fúnebre da operação. Todos são surpreendidos, a criança que vai a escola, o velho que toma sol, quem sai ou chega do trabalho e quem sai ou chega da compra do pãozinho na padaria, acho que os únicos que não se surpreendem são os periquitos.

Resumindo: a coisa ficou tensa, e de forma meio inexplicável agente acaba percebendo o clima, agente sente no ar, a favela é grande, é imensa, mas agente percebe que a normalidade está comprometida.

Em situações assim os passos ficam apressados e as cucas frescas começam a esquentar. De repente um grito sussurrado “eles estão entrando nas casas!” eles quem? Sem resposta, o emissor do grito sussurrado se distancia rapidamente.

Fim

Minutos depois a campainha da casa toca. Quem podia ser? Deve ser eles, mas a malícia recomenda esperar um pouco, no meio tempo eles desistem. A campainha insiste e se intensifica. Agora o bom senso recomenda abrir a porta. Não tem escapatória. É quase certo que seja eles, quem mais numa manhã de um dia assim é tão insistente. 

Já vai!

Alívio

Era os “irmãos” evangelizando.

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Este é um texto fictício. Qualquer semelhança com a realidade é apenas uma infeliz coincidência.

1 comentários:

Francisco,
Belo texto. Parabéns.
Fico observando, de longe, as notícias e movimentos nas favelas do Rio. A maioria absoluta de moradores são pessoas como nós, trabalhadoras, honestas e dedicadas aos seus objetivos. Vejo, pela mídia, muita injustiça social e um descaso do poder público. Não vejo, a curto prazo, mudanças neste sentido. O que é lamentável. Mas trabalhos como o seu ajuda a mudar este cenário, ou pleo menos eleva o espírito de todos.
Sucesso e boa sorte.

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