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17 de junho de 2013

Remoções em Favelas do Rio de Janeiro

Marcelo morador da favela Pavão-Pavãozinho na
manifestação "Marcha por uma Copa do Povo" 
 (30 de julho 2012) no Rio de Janeiro.

 Foto: Francisco Valdean
O que posto neste blog é fruto de vivência e de andanças pela cidade e da partilha de experiências aqui e ali, são impressões destas andanças, são impressões desta cidade que para muitos é maravilhosa, mas que também não é nenhuma maravilha para muita gente que aqui vive. A maioria dos assuntos abordados neste espaço são referentes as favelas cariocas e no momento as remoções é um assunto latente que tem tirado o sono de muitos moradores de favelas.

O poder público não assume as remoções como uma política, por outro lado a imprensa carioca não tem interesse reflexivo pelo assunto, para os grandes veículos da impressa (impressa, televisiva ou internet) é como se tudo estivesse em perfeita harmonia e as favelas vivessem em eterno estado de felicidade por conta do projeto de "Pacificação" em andamento em algumas favelas. Mas os moradores e alguns atores sociais com frequência denunciam as muitas remoções que ocorrem em varias favelas da cidade.

Na impressa internacional o assunto já foi abordado em um artigo intitulado (Em nome do futuro, Rio está destruindo o passado), publicado no jornal The New York Times. Dois interessantes vídeos no You Tube (Casas Marcadas e Entre sem Bater) também abordam o assunto.

As remoções ocorrem por conta das transformações e reestruturações que a cidade vive para receber os eventos esportivos, Copa (2014)  e Olimpíadas (2016). Existem processos de remoções em vários pontos da cidade, destaco aqui algumas localidades: favela Santa Marta, Morro da Providência, Manguinhos e Vila Autódromo.

Para a realização deste post escrevi para algumas pessoas que moram em favelas ou que se dedicam profissionalmente sobre questões relativas as favelas cariocas. Fiz a estes a seguinte pergunta:  

O Cotidiano: Na atualidade na cidade do Rio de Janeiro temos um quadro dramático       em relação às remoções de moradores de favelas. Temos notícias de remoções em varias regiões da cidade: Providência, Vila Autódromo, Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Santa Marta. O que você acha a respeito deste assunto?

Esta publicação tem um caráter opinativo, a começar pela pergunta. Para ilustrar as opiniões uso imagens do ensaio fotográfico "Tem Morador", um ensaio realizado por fotógrafos da Escola de Fotógrafos Populares /Imagens do Povo. "Tem Morador" é um projeto coletivo de documentação, que tem como objetivo registrar as lutas de resistência e o cotidiano das comunidades ameaçadas de remoção.

Por Francisco Valdean

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As pessoas precisariam ser informadas se gostariam de sair do lugar ou não

Texto: Léo Lima
Foto: Renan Otto




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Texto: Gizele Martins
Foto: Luiz Baltar





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Texto: Luiz Baltar
Foto: Luiz Baltar






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A Cidade das Remoções

Texto: Wagner Maia
Foto: Luiz Baltar

A cidade das remoções

Foto: Luiz Baltar - Ensaio fotográfico "Tem Morador", realizado no Morro da Providência. O ensaio fotógrafo foi realizado por fotógrafos formados na Escola de Fotógrafos Populares.  "Tem Morador" é um projeto coletivo de documentação, que tem como objetivo registrar as lutas de resistência e o cotidiano das comunidades ameaçadas de remoção.
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Opinião


O Cotidiano: Na atualidade na cidade do Rio de Janeiro temos um quadro dramático       em relação às remoções de moradores de favelas. Temos notícias de remoções em varias regiões da cidade: Providência, Vila Autódromo, Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Santa Marta. O que você acha a respeito deste assunto?

Wagner Maia*

As favelas cariocas, compostas por diversidades, não só em valores de extensão territorial, mais com suas dimensões culturais, vem cada vez mais demonstrando ao restante da cidade e impondo a essa mesma uma participação mais efetiva. Assim, a favela e restante da cidade, embora vividos na “cidade partida”, a primeira sempre fora estigmatizada para a permanência e sustentação do status quo, da segunda. A cidade cada vez mais legitimadora das desigualdades sociais.

Essa cidade que historicamente fora denominada como partida, surte um efeito contrário nas relações de percepção, principalmente dos recentes governantes ao afirmarem que  somos todos  um só Estado e uma só cidade. Joga-se de lado, quase ou mais de um século de lutas dos moradores de favelas e pessoas simpáticos a causa desses espaços num projeto de cidade visando questões de grandes empreendimentos.

Surge assim, no século XXI, o que diversos governantes principalmente do século XX, tentaram implantar na cidade carioca. Uma cidade higienizada, distante dos indesejáveis. Esses últimos, quase como sempre moradores de favelas e periferias. Desde de Pereira Passos, passando por Carlos Lacerda, historicamente acusados de tentar higienizar a cidade. Mas esbarravam numa população e agentes individuais que lutavam pela permanecia e socialização dos “indesejados” dentro da cidade e não à margem desta.

Entretanto, eis que surge um projeto de cidade, voltado para os grandes eventos, tais como (Rio+20, Copa do Mundo, Olimpíadas, etc). Eventos que colocam a cidade no mapa mundial e que dão todas as cartas aos governantes brasileiros, há usarem de todos os métodos, no intuito de implantarem a “cidade perfeita”. Assim, é essencial que algumas favelas sejam removidas e seus moradores, mandados para lugares distantes das áreas privilegiadas da cidade, especificamente (Zona Sul, Parte do Centro da Cidade e Zona Oeste).

Assim, favelas como: Providência, Vila Autódromo, Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Santa Marta, entre outras viraram experiências de Remoção. Tornando a Cidade, o que venho chamando de (Cidade das Remoções). Não respeitando, o cultural, a socialização e o direito de ser dono do seu lar. A cidade se torna mais que partida, está presa na lógica da segregação, e pior, com legitimação de boa parte da sociedade. Nossa luta deve ser diária e permanente afim de conseguirmos frear essas remoções que acontecem em ordem aritmética, numa cidade historicamente partida.  

* Wagner Maia é formado em Ciências Sociais pela UERJ.

As pessoas precisam ser informadas se gostariam de sair do lugar ou não

Foto: Renan Otto - Ensaio fotográfico "Tem Morador", realizado no Morro da Providência. O ensaio fotógrafo foi realizado por fotógrafos formados na Escola de Fotógrafos Populares.  "Tem Morador" é um projeto coletivo de documentação, que tem como objetivo registrar as lutas de resistência e o cotidiano das comunidades ameaçadas de remoção.
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Opinião



O Cotidiano: Na atualidade na cidade do Rio de Janeiro temos um quadro dramático       em relação às remoções de moradores de favelas. Temos notícias de remoções em varias regiões da cidade: Providência, Vila Autódromo, Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Santa Marta. O que você acha a respeito deste assunto?


Léo Lima*



Muito complicada esta situação, não pela remoção de casas em si, mas pela falta de respeito e de diálogo entre as partes, no caso o governo e as pessoas. Em nenhuma dessas localidades, ditas, informais pelo poder público, elas são informadas sobre o projeto, se são, só ficam sabendo quando a bomba explode! Não existe um projeto onde pense o desenvolvimento dos cidadãos, só do que o estado entende por cidade desenvolvida, pautada no capital financeiro visando interesses singulares somente a seus empresários e empreiteiras, como já bem disseram muitos especialistas da questão, como Raquel Rolnick e Marcelo Freixo.

Todos sabem que o país vive um problema histórico de moradia. As pessoas estão sem casas para morar, mesmo sendo um direito humano. E ainda sim, são expulsas de seus lares, haja vista, as ocupações urbanas na cidade do Rio de Janeiro, com a “Flor do Asfalto e Quilombo das Guerreiras”, localizadas na zona portuária da cidade.

Se as pessoas se estabeleceram nas favelas ou prédios abandonados, mesmo sendo locais informais, é porque ter uma casa acabou se tornando um privilégio, ao invés de um direito. Por esse óbvio motivo é que essa não pode ser a justificativa para a remoção desses espaços, ainda mais porque o governo historicamente vende uma ideia de desenvolvimento territorial que não existe, se esse mesmo desenvolvimento não valoriza sua cultura local, arte e política comunitária e o bem estar social de seus moradores.

Em minha opinião, as pessoas precisariam ser informadas se gostariam de sair do lugar ou não, antes de qualquer ação ou projeto pronto. Sua casa deveria ser quitada, de maneira legal, ou antes, dela se mudar, a casa nova já deveria estar pronta e não muito longe do lugar onde se estabeleceu, mas principalmente que sua cultura local fosse valorizada e não encurralada para que diante das mudanças, a pessoa não se sentisse pertencente do espaço popular e ter que sair, seja pela especulação imobiliária, pela desvalorização dos indivíduos ou as demais arbitrariedades do atual governo, que insiste em trazer a tona fragmentos da “falecida” ditadura militar.


* Léo Lima é fotógrafo da Agência fotográfica Imagens do Povo e registra as remoções em varias favelas do Rio de Janeiro.

Pereira Passos que nada, o príncipe das remoções é Eduardo Paes

Foto: Luiz Baltar - Ensaio fotográfico "Tem Morador", realizado no Morro da Providência. O ensaio fotógrafo foi realizado por fotógrafos formados na Escola de Fotógrafos Populares.  "Tem Morador" é um projeto coletivo de documentação, que tem como objetivo registrar as lutas de resistência e o cotidiano das comunidades ameaçadas de remoção.
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Opinião


O Cotidiano: Na atualidade na cidade do Rio de Janeiro temos um quadro dramático       em relação às remoções de moradores de favelas. Temos notícias de remoções em varias regiões da cidade: Providência, Vila Autódromo, Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Santa Marta. O que você acha a respeito deste assunto?


Luiz Baltar* 

O Rio de Janeiro já é hoje uma das metrópoles mais caras do mundo para se viver. A especulação imobiliária e os projetos turísticos de "revitalização" criam uma segregação social, ainda mais perversa que a executada por Pereira Passos. 

Com a proximidade dos mega eventos, o processo em curso de remoções e privatização da cidade deve ser acelerado para cumprir prazos e acordos. Por trás do discurso de modernização, que agrada parcelas da sociedade, existe um grande esquema que se utiliza do Estado para favorecer grupos econômicos e capitalizar os espaços públicos. É um modelo excludente, segregador e como estamos vendo com os últimos acontecimentos nos territórios com UPP, criminoso também, pois o Estado utiliza de seus aparelhos de repressão para calar os protestos e negar o direito à moradia.

*Luiz Baltar é Designer e fotógrafo da Agência Fotográfica Imagens do Povo



As remoções de favelas no Rio são em áreas de risco ou em áreas próximas de ricos?

Foto: Luiz Baltar - Ensaio fotográfico "Tem Morador", realizado no Morro da Providência. O ensaio fotógrafo foi realizado por fotógrafos formados na Escola de Fotógrafos Populares.  "Tem Morador" é um projeto coletivo de documentação, que tem como objetivo registrar as lutas de resistência e o cotidiano das comunidades ameaçadas de remoção.
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Opinião


O Cotidiano: Na atualidade na cidade do Rio de Janeiro temos um quadro dramático       em relação às remoções de moradores de favelas. Temos notícias de remoções em varias regiões da cidade: Providência, Vila Autódromo, Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Santa Marta. O que você acha a respeito deste assunto?


Gizele Martins*

São mais de 100 favelas na lista das remoções em todo o Rio de Janeiro. Esta tal lista saiu na mesma semana em que o Rio foi escolhido como sede dos Megaeventos para 2014 e 2016. A lista foi feita e divulgada pela Secretaria Municipal de Habitação do Rio. O objetivo era que elas fossem todas removidas até o final de 2012. Muitas delas já até passaram pelo triste e brutal processo de remoção, famílias e mais famílias perderam suas casas, muitas delas foram removidas para bairros bem longe de onde moravam, outros estão espelhados morando em casas de familiares.


A maioria destas favelas que entraram na lista das remoções, foram parar na lista com a desculpa de que elas estariam em áreas de risco de deslizamento ou inundação, de proteção ambiental ou destinados a logradouros públicos. Numa entrevista que fiz em maio de 2010 com Guilherme Marques do IPPUR/UFRJ e que estuda os problemas habitacionais da cidade, este conceito de que as favelas crescem em locais de risco sempre existiu e é apenas uma desculpa para afastar os pobres das áreas de ricos.


"Existe um conceito de “área de risco” que as pessoas reproduzem, mas que não aprofundam. O risco que os trabalhadores correm não é o risco apenas do local onde eles moram. Os trabalhadores correm riscos todos os dias. E se há risco, é preciso diminuí-lo e não remover os trabalhadores. O Rio de Janeiro todo vive nessa situação de risco. Na estrada que leva ao Cristo Redentor teve 26 deslizamentos em 2010. Ninguém falou em remover o Cristo e as casas em volta dele. A Praça da Bandeira alaga há anos e ninguém vai remover o comércio de lá. Pelo contrário, vai ter melhorias no local".


Ou seja, quando se fala em remoção, você não está falando em riscos, e sim em ricos. O problema são os ricos que moram perto dessas áreas que pretendem ter algum tipo de valorização sobre o local. O objetivo é afastar os pobres de perto deles, e essa é a política do governo também. Isto é confirmado quando a gente analisa a lista e percebe que muitas das favelas que entraram nela estão em locais de grande interesse imobiliários, assim como a favela da Vila Autódromo, localizada na Zona Oeste do Rio.


De acordo com a Prefeitura mais 3.630 imóveis na região de Jacarepaguá, Madureira, Vicente de Carvalho e Brás de Pina vão sair dali para dar lugar a construção da Transcarioca, via exclusiva que ligará a Barra da Tijuca à Penha. Há ainda a Transolímpica e a Transoeste, outras vias expressas que preparam a cidade para a Copa e para as Olimpíadas.


Mas não é só este tipo de remoção que está ocorrendo em toda a cidade do Rio. Nas favelas que hoje estão dominadas pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), por exemplo, existe uma remoção disfarçadas, uma remoção que nunca será reconhecida oficialmente pelo Estado. Quando chega a UPP nestas favelas, a ideia de cidadania também chega, como se nós moradores de favelas não fossemos mesmo considerados cidadãos. Mas o que o Estado chama de cidadania é apenas a legalização da luz, dos impostos, colocando bancos, investindo mais em Ongs, além de uma absurda valorização do comércio não local.


Com isto, há o encarecimento do local, do terreno, da comida, da luz, já que os moradores mesmo sem o direito à habitação de qualidade são obrigados a pagarem mais impostos, a pagarem uma conta de luz altíssima, por exemplo. E estes moradores que na maioria das vezes não ganham nem um salário mínimo por mês, por falta de emprego, de educação pública de qualidade e diversos outros direitos básicos, são obrigados a encarecerem também o comércio local, não conseguem mais pagar o aluguel ou manter a casa, com isto, acabam tendo que sair do seu antigo lugar de moradia e procurar outras favelas e bairros mais distantes da região Central e da Zona Sul do Rio para morar.


Ou seja, é um tipo de remoção não declarada vindo de um falso discurso de segurança pública. Estas duas formas de remoção que ocorrem hoje na Cidade Maravilhosa, não é por acaso, no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro existe uma marca forte no que diz respeito à falta de moradia. O Rio sempre foi marcado por grandes remoções forçadas, por ocupações e favelas que pegam fogo sem nenhuma explicação. Desta vez, os moradores destas mais de 100 favelas que estão na lista das remoções e algumas que já sofreram este brutal processo, já sabem que estes tais "acontecimentos" não são por acaso, e existem interesses do Estado e das grandes empresas em suas áreas de moradia.


Com todo esse  novo histórico de remoções que estão ocorrendo há um pouco mais de três anos no Rio, um movimento contra a remoção forçada feito por moradores e defensores de direitos humanos foi reacendido. Além disso, moradores das áreas com UPP também entraram nesta luta contra estas mais variadas formas de remoções. Para terminar, Guilherme Marques afirma que é preciso respeitar as relações pessoais e familiares que existem nestas favelas, já que o laço de confiança entre vizinhos, sem contar na questão cultural é e sempre foi muito grande.


"Se a remoção é forçada, significa que não é para melhoria da população. O governo deve dar como alternativa outros lugares melhores para se morar, condições melhores para se viver, e aí sim as pessoas podem escolher se mudar. Se a remoção é forçada, é porque está errada, e aí se deve combatê-la. Nos lugares em que os laudos comprovaram que há risco, o primeiro passo não é a remoção, e sim fazer contenção, saneamento, drenagem, limpeza do lixo. Não se pode propor que as pessoas se mudem para longe de onde elas vivem. Os mais pobres não têm condições de pagar babás para cuidar de suas crianças, creches e passagens de ônibus etc. Estes moradores dependem de uma rede de amigos e de familiares que ele construiu ao longo da vida naquele local para sobreviver. Eles devem ser remanejados para locais próximos de onde moravam", conclui Guilherme. O que significa que não existem desculpas a não ser os interesses imobiliários e comerciais, ou para dar lugar às obras dos Megaeventos.

*Gizele Martins é jornalista e coordenadora do Jornal o Cidadão.